Half-Life, um fenômeno cultural



Se você nasceu nos anos 90 ou se você participa de alguma comunidade de video games mais ativamente, a chance é que você já escutou esse nome, talvez sem sequer saber do que se trata: Half-Life. E se você realmente jogava video games na primeira década dos anos 2000, mesmo nunca tendo jogado-o, a chance é que você sabe o que gira em torno desta franquia, só talvez não compreenda o que aconteceu para que Half-Life ganhasse um status tão famoso no mundo dos jogos. Bem, eu estou prestes a te contar.

Half-Life é um jogo de tiro em primeira pessoa lançado em 1998 pela Valve Corporation - Hoje em dia, a dona da famosa Steam - e publicado pela defunta Sierra Entertainment. Foi responsável por arrastar dezenas de prêmios de jogo do ano nos anos 90 e, até os dias de hoje, já vendeu mais de 10 milhões de cópias ao longo do tempo. E para você realmente entender o motivo pelo qual este jogo ter sido tão aclamado eu preciso primeiramente contextualizar o que estava acontecendo no mundo em 1998.


Quake 2

Fazia pouco tempo que hardware com capacidade de renderizar ambientes realmente em 3D haviam sido colocados no mercado de jogos, junto dos consoles, mas, como de se esperar, os avanços tecnológicos mais pesados ficavam no PC. Saímos de jogos como DooM, Blood, Heretic, Duke Nukem e afins para jogos completamente diferentes como Quake, Blood, Turok e o famoso Golden Eye. Se havia algo que todos tinham em comum era a profundidade, capacidade gráfica, inteligencia artificial, efeitos visuais de ponta e, principalmente, a total falta de uma narrativa coerente. Não me entenda errado, hoje em dia nós compreendemos as histórias destes jogos porque tivemos décadas para desenvolver e vários outros jogos sequenciais para consumirmos, mas na época, um jogo como Quake ou Doom tinha tanta narrativa que poderia ser escrito em um rodapé de 3 linhas. Dentro do jogo, distinguir os eventos que estavam acontecendo era praticamente impossível e, no fundo, os jogos eram basicamente um show de gameplay em arenas sofisticadas que vinham uma atrás da outra.

E em 1998, através dos esforços de uma equipe nova, fundada por dois ex funcionários da microsoft, Half-Life era lançado no finalzinho do ano. O que Half-Life trouxe era mais do que uma versão modifica do motor gráfico do Quake, ele trouxe uma visão completamente nova para jogos em primeira pessoa. O jogo inovou por tentar nos passar uma narrativa sem interrupções utilizando de todas as capacidades tecnológicas que tinha à disposição. Com diálogos, personagens vivos que você poderia interagir, sequencias cinemáticas que envolviam o ambiente e um cenário expansivo e realista, sequencial e lógico, que parecia um local vivo onde eventos diversos se desenrolavam, ao invés de servir apenas como um labirinto de pano de fundo para carnificina. A inteligência artificial do jogo era algo completamente nova, o que nos dava inimigos dinâmicos, que utilizavam o cenário a seu favor e pareciam mais vivos. O jogo tinha resolução de puzzles, onde o jogador precisava usar o cenário de forma inteligente para atingir o objetivo. O jogo continha até sequências em Stealth - Onde você poderia se esconder e surpreender os inimigos. Tudo isto sem perder o foco da narrativa que íamos descobrindo de pouco em pouco. Já não era mais aquele tipo de jogo que nos deixava perguntando o que estava acontecendo, Half-Life vinha para mostrar uma história principalmente


Half-Life - 1998

E a sua narrativa tinha grandes inspirações como Stephen King's The Mist e Alien. Onde a terra era invadida por criaturas horríveis depois de um experimento dado errado. O jogo também fazia um bom trabalho na atmosfera e construção da trama, onde o personagem era colocado como um cientista qualquer que acabou preso em uma armadilha mortal e precisa sobreviver a coisa que estavam bem fora da sua capacidade. O Homem errado no lugar certo. O jogo lentamente revela o intuito verdadeiro do local onde você trabalhava, a Black Mesa, e introduz personagens de forma sutil e misteriosa, que só mostravam suas cores verdadeiras a medida que você progredia ao fim do jogo. E claro que estamos falando de Half-Life, e o final não é nada convencional como toda a trama.

Estava formada a base para o sucesso ascendente que seria Half-Life. O jogo mudou completamente a forma que o gênero FPS construía seus próprios jogos e influencia jogos diretamente e indiretamente até hoje, assim como foi D.W. Griffith para o Cinema, com a exploração dos valores de enquadramento da câmera, foi Half-Life com sua profunda exploração das capacidades tecnológicas da época para nos dar uma narrativa rica e imersiva como nunca visto antes.

E os desenvolvedores aprenderam sua lição. FPS como os Quakes antigos e Turok ficaram no passado e jogos completamente diferentes dominavam o mercado no começo dos anos 2000, como Halo: Combat Evolved, Killzone, DooM 3, e eles estavam evoluindo rapido. Não foi como a enxurrada de jogos idênticos dos anos 90, que ficaram conhecidos apenas com "DooM Clones", os jogos estavam evoluindo rapido. A diferença entre jogos de 2001 como Red Faction e DooM 3 de 2003 era como noite e dia. Para entrar e emplacar no mercado, as coisas seriam bem mais difíceis, mas não vamos achar que a Valve estava esquecida enquanto outros jogos dominavam o mercado. Half-Life ainda fazia sucesso e seus mods como o famoso Counter-Strike dominavam as lan-houses. Mesmo depois de dramas e atrasos, a Valve chega em 2004 com uma das engines mais poderosa e diversificadas da época, com sistema de física poderoso e uma fidelidade gráfica inigualável, gerando um hype enorme pelo jogo.


Half-Life 2 - 2004

Meados de 2004 e o jogo é lançado e uma linha evidente era traçada entre ele e seus competidores. Half-Life 2 trouxe não só uma qualidade gráfica nunca vista antes, mas trouxe uma estética nunca vista antes. O jogo era enorme, expansivo, os mapas era longos com vistas distantes e horizontes. Se a Black Mesa de Half-Life 1 era realista em termos de gráfico e proporção, o mundo de Half-Life 2 era 10 vezes aquilo. Os cenários eram profundamente variados, com cidades inteiras, ambientes no sub-solo, sequencias na água, sequências de carro. O jogo era tudo. E o final...

Devido ao sucesso, que obviamente começou a impulsionar a Steam - Não, a Steam não era grande coisa em 2004 e só foi ser muito tempo depois - a Valve anunciou que Half-Life 2 ainda teria continuação em forma de 3 episódios que seriam lançados apenas alguns anos após o lançamento do jogo base em 2004. Half-Life Episode 1 ao 3 contariam os eventos após o final absurdo do segundo jogo. E caso você tenha vivido debaixo de uma pedra até hoje ou simplesmente não se importava: Half-Life 2: Episode 3 nunca foi lançado.

E aqui começamos a falar de um dos motivos mais contemporâneos pelo qual Half-Life se tornou a lenda que é hoje em dia. Não vou dar spoilers, mas o segundo episódio da suposta trilogia de expansões acabou de uma forma absolutamente dramática. Acho que não vai ser fácil de entender sem ter jogado, mas vamos por assim: precisamos do terceiro. Fim de sentença. O que aconteceu a seguir, foram inúmeros atrasos, pouca informação, mudanças de rumo da empresa e o lançamento de outros jogos paralelos que não referenciavam à tão aguardada finalização da saga. Mais alguns anos e as chances de vermos a conclusão da saga pareciam distantes, sobrando apenas algumas brechas de informação redundantes e uma constante petição online por parte dos fans, que viam confirmações onde quer que fosse, dando origem ao meme "Half-Life 3 Confirmed". Spoiler: nunca foi confirmado. Hoje em dia, 2019, e até mesmo há alguns bons anos atrás, as expectativas para o fim da saga praticamente morreram, e a comunidade começou a viver com o fato de que realmente nunca veremos uma conclusão para a saga. Seja pela demora ou pelo simples fato de que a própria Valve não tem interesse em fazer a sequência.

Honestamente, eu até hoje considero Half-Life 2 como um dos jogos de tiro mais bem feitos de todos os tempos, e é, sem dúvida, um dos mais importantes junto de seu antecessor. Talvez a Valve tenha feito a coisa certa, já que temos de admitir a fama que eles ganharam por conta da lenda do terceiro jogo que nunca foi. Talvez este tenha sido o acontecimento errado na hora certa para eles. Talvez o próprio mundo dos jogos não seria o mesmo caso Half-Life 3 tivesse lançado. Assim como foi o tão aguardado Duke Nukem Forever, que demorou eternamente para ser lançado, e ao sair... digamos que será igualmente eternamente péssimo. Não estou dizendo que Half-Life 3 teria sido ruim, isso contradiz o histórico praticamente impecável de jogos da Valve, mas talvez venhamos a sentir mais apresso por um jogo que nunca tivemos.





- Comissar Cain
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